Terça-feira, 31 de Março de 2009

Reminiscências

 

Apenas as histórias contadas pelos anciões me permitiram conjugar as minhas lembranças de criança, com a lenda.

 

 Eu chorava, chorava como apenas uma criança de 8 anos o faz perante a barbárie que eu vislumbrava. A cidade havia caído, foram tomada pelo exército que a cercava fazia já quase um ano, cerco esse que havia apenas sido delongado pelo grupo de mercenários que na cidade havia tomado refugio poucos dias antes do início do mesmo. Isolados também eles, sem sucesso de negociação da sua saída, foram obrigados a lutar.

 

 Eu chorava, mesmo estando apertada nuns braços fortes, o massacre, as violações e as pilhagens que me rodeavam, assustavam-me e nada poderia conter o meu choro. O guerreiro que me carregava, na sua voz grossa e ríspida comandava-me ao ouvido: - Cala-te, cala-te ou atrairás mais!!!

 

 Ao som de espadas desembainhadas, senti-me atirada contra a parede e o enorme vulto do meu protector, envolveu-me. O meu choro havia chamado a atenção de mais 3 inimigos. Como que clarões surgiram faíscas, os meus ouvidos encheram-se do clangor do metal, e quando este acabou como que uma névoa de sangue havia no ar.

 

 Não o guerreiro que me protegia, não era o melhor dos soldados, a sua técnica era longe de perfeita, mas a ira que o preenchia em combate e tal era a sua força, que nada, nem ninguém conseguia resistir-lhe. E embora o seu corpo apresenta-se vários golpes, a sua força não parecia diminuir, mas sim contrariamente parecia aumentar.

 

 Mais uma vez fui elevada nos seus braços, e recordo que o seu cabelo estava espesso e sujo pelo sangue, talvez seu, talvez dos que tinha morto. Mais uma vez ouvi o seu comando: -Cala-te demónios, assim vais matar-nos aos dois!!! Mas o pavor não me largava e continuei a chorar.

 

 Sentia-o correr, a sua passada era longa e veloz, mas o meu barulho alertava todos os que passávamos, até que um enorme grupo nos perseguia. - Temos de alcançar o pequeno portão oeste, se estiver aberto, poderemos sair e a passagem permitirá, acabar com estes cobardes. A sua passada pareceu aumentar de velocidade, agora que o portão se encontrava à vista.

 

 Mas nem sempre os deuses sorriem, ou por vezes estão desatentos. O portão Oeste estava fechado, aparentemente a guarda da cidade que se tinha evadido da cidade havia escolhido outra saída, e como tal não havia maneira de o abrir.

 

 Um suspiro e uma risada soltaram-se da boca do guerreiro. Inspirando fundo, pousou-me no chão num movimento suave, dizendo: - Vês o que fizeste? Agora vais ser uma coisinha linda e vais ficar aqui quietinha!

 

 Quando se virou, já 4 homens o atacavam, seguros de ter como presa fácil, um único homem, carregado de uma criança, sufocante da corrida que havia feito até ali. Um erro que pagaram com a vida, sem qualquer requinte ou técnica, o guerreiro brandiu a sua espada enquanto de virava, com tal força que nem carne, nem osso ou mesmo metal puderam resistir. Espadas partiram-se, sangue jorrou e membros caíram decepados. Quatro corpos caíram ao chão, já sem vida.

 

 Os restantes atacantes do grupo hesitaram por um instante, julgando-se seguros pela distancia que haviam mantido. Como um tigre o guerreiro saltou para o meio de dois, que antes do seu próximo suspiro tombaram inertes.

 

 O guerreiro recuou, mais uma vez a sua silhueta preenchia o meu horizonte, mas os sons de batalha e gritos de guerras mais uma vez se fizeram ouvir. A minha memória é pouco viva, por momentos e em pânico devo de ter fechado os olhos, mas vaga após vaga homens iam caindo em frente ao guerreiro, até que os mortos e os moribundos à sua frente se amontoavam numa massa, na qual era difícil discernir números.

 

 As vagas um momento pararam, eu pode vislumbrar o estado do meu protector. O seu corpo era adornado de pequenos e grandes golpes que sangravam e o pintavam de vermelho, por cima do ombro de tempos em tempos ele olhava para mim, e na sua face estava um sorriso, um sorriso de êxtase como se de um demónio se tratasse e a carnificina com que presenteava o mundo, fossem a sua missão.

 

 Mas as vagas haviam parado por um motivo. A fileira abriu-se para dar lugar a uma frente de arqueiros, todos apostos para disparar. - Cobardes!!! Foi a única coisa que ouvi o guerreiro dizer, e ao soar um comando – largar!!!, os silvos das flechas fizeram-se ouvir no ar.

 

 O mundo ficou escuro para mim, pensava que havia morrido, mas uma voz chamou-me à realidade. - Estás bem? Ahahahah, eu acho que me fico por aqui. O meu protector, havia feito jus ao seu título, com o seu lago corpo havia protegido o meu e as suas costas e pernas estavam cravadas de flechas.

 

 Enquanto os meus olhos mais uma vez se enchiam de lágrimas, olhava os olhos que me havia tentado proteger, uns olhos serenos, de que não receava o que estava a acontecer. Nada diria que este homem estava a morrer, não fosse a sua figura e o seu respirar ofegante de quem luta por cada fôlego.

 

 Estranhamente mais ninguém atacou, nem mais uma flecha foi lançada, contrariamente uma figura avançou para o guerreiro, sozinho de espada embainhado, este homem avançou sem medo ou indícios de receio.

 

 Num esforço sobre-humano o guerreiro apoiado na sua espada ergueu-se, mesmo sabendo que esta seria a ultima coisa que faria, desafiadoramente fazendo frente à figura que avançava.

 

 - Calma, meu bravo! Sou o comandante Ahn Hajet, e lidero esta ralé. Tu contrariamente ao meu exército, possuis coragem e honra, e eu sinto-me movido pela tua convicção, convicção essa que usaste para proteger esta criança. Descansa meu bravo, nenhum mal recairá sobre ela, adopta-la-ei como minha filha e será protegida enquanto eu viver.

 

 O guerreiro caiu sobre os joelhos, ficando com a cabeça apoiada na espada. Se estava morto antes do comandante terminar, jamais saberemos mas gosto de acreditar que o seu último fôlego estava guardado para me proteger.

 

 Ninguém jamais sobe o seu nome, fazia parte do bando mercenário que se encontrava a proteger a cidade, e meu pai adoptivo jamais quis falar sobre a tomada da cidade que passou a ser a nossa. Havia uma enorme vergonha em si, pelo que havia acontecido.

 

 Recordarei sempre aquele homem, que embora forte, estava longe de ser o melhor dos guerreiros, mas cuja determinação para proteger uma criança, o tornou sobre-humano e cujo altruísmo o tornou invencível!

 

Posted por Lobo Mau às 01:43
| Comentar | Adicionar aos favoritos

.Maio 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.Uivos recentes

. Lembranças

. Para aminha Canuca

. Uma questão de confiança

. The game its on.

. High Heels Effect

. Two weeks later

. Sonolência, ou não

. ...

. Nada é gratuito neste mun...

. Bonança

.Links Recomendados

.Arquivos

. Maio 2010

. Novembro 2009

. Setembro 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Novembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Agosto 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

. Dezembro 2003

. Novembro 2003

.Moon Fases



lunar phases
 

.Contador de Uivos

Jewish
Sony Ericsson w300i
blogs SAPO